Dos fragmentos da antiguidade clássica á fragmentação da modernidade histórica. Retrocesso como progresso e degradação como evolução.
Tese Acadêmica: A Gênese Liberal na Fragmentação do Nominalismo
A presente tese acadêmica argumenta que o nominalismo, ao rechaçar a existência de universais e, consequentemente, redefinir a natureza da realidade e do conhecimento, inadvertidamente preparou o terreno filosófico e social para o surgimento do liberalismo. A renegação das essências e formas coletivas em favor da primazia do particular e do individual não é apenas um debate metafísico, mas um ponto de inflexão crucial que ressoa na esfera política, econômica e social. A fragmentação da realidade, antes unificada por conceitos universais, culmina na fragmentação da modernidade, onde o indivíduo se torna a unidade de medida central de todas as coisas, ecoando a máxima de Protágoras, mas em um novo contexto refratário.
O argumento dissertativo que sustenta esta tese se desdobra em três pilares principais:
Da Metafísica à Ética: A Virada Antropológica do Nominalismo: A crítica nominalista, em especial a de Guilherme de Ockham, destrói a ontologia platônico-aristotélica que sustentava a realidade em ideias ou essências universais. Ockham, ao postular que apenas os entes singulares existem, não só revoluciona a teologia e a filosofia, mas também reposiciona o homem. Sem a mediação de universais que o ligam a uma totalidade orgânica (como a Igreja ou a sociedade feudal), o indivíduo é lançado à sua própria singularidade. O nominalismo, portanto, não apenas nega a existência de classes e categorias universais, mas, por extensão, dissolve o conceito de "bem comum" como algo inerente à natureza das coisas. O que é bom ou justo passa a ser resultado de uma convenção humana, uma escolha particular.
O Indivíduo como Unidade Econômica e Política: A primazia do particular na filosofia nominalista encontra sua correspondência prática na nascente economia de mercado e nas novas teorias políticas. A medida de valor não é mais o trabalho socialmente necessário ou a "justiça" de um preço, mas a utilidade e a preferência do indivíduo. O liberalismo econômico, com Adam Smith, eleva o egoísmo individual e a busca pelo lucro próprio a motor da riqueza das nações. Da mesma forma, no plano político, o contratualismo liberal de Hobbes e Locke, embora com diferenças, parte de um estado de natureza onde o indivíduo é a única entidade preexistente. O corpo político é um artifício criado por um acordo entre indivíduos para proteger seus direitos e interesses privados, não uma totalidade orgânica que existe por si mesma.
A Ruptura com a Antiguidade e a Ascensão da Modernidade Refratária: A filosofia helênica, com sua ênfase na cidade-estado (polis) e no cosmos como um todo harmonioso, enxergava o indivíduo como uma parte orgânica de uma totalidade superior. A felicidade (eudaimonia) era alcançada no convívio social e na participação na vida pública. A modernidade, herdeira da fragmentação nominalista, é fundamentalmente refratária a essa visão. O indivíduo moderno, atomizado e livre de laços pré-determinados, constrói sua própria identidade e seu próprio projeto de vida. A liberdade, no contexto liberal, não é mais a autonomia para participar da vida da comunidade, mas a ausência de impedimentos externos para a realização dos próprios desejos e interesses. A renegação dos universais, que na filosofia grega davam sentido e coesão à realidade, resulta na fragmentação da modernidade, onde a sociedade é vista como um agregado de indivíduos e os laços sociais são instrumentais e contratuais, e não orgânicos.
Este argumento dissertativo busca demonstrar que o nominalismo não é a causa direta do liberalismo, mas uma condição filosófica necessária que, ao desmantelar as bases ontológicas do universalismo, permitiu que a primazia do indivíduo e do particular, que já se manifestavam em outras esferas, ganhasse um solo fértil para se desenvolver e se consolidar como a ideologia dominante da modernidade.

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