Os dons preternaturais segundo a tradição cristã.
Discorra sobre os dons preternaturais segundo a tradição cristã.
Excelente questão. Os dons preternaturais são um conceito fundamental na teologia cristã, especialmente na tradição católica, e referem-se a privilégios concedidos por Deus ao ser humano no estado de justiça original (o estado antes do Pecado Original).
O termo "preternatural" (do latim praeter naturam) significa "além da natureza" ou "acima do natural", mas não no sentido de "sobrenatural" (supra naturam).
Dons Sobrenaturais: Estão acima da capacidade de qualquer natureza criada ou criável (ex: a Graça Santificante, a Visão Beatífica de Deus face a face).
Dons Preternaturais: Não são devidos à natureza humana em si, mas uma vez concedidos, aperfeiçoam-na de uma maneira que está dentro da capacidade relativa de uma criatura (como um auxílio especial de Deus para isentar a natureza de suas misérias).
1. O Contexto: O Estado de Justiça Original
Os dons preternaturais eram parte da perfeição com que Adão e Eva foram criados, juntamente com o dom sobrenatural da Graça Santificante. A tradição cristã ensina que, nesse estado paradisíaco, o homem gozava de uma harmonia tripla:
Harmonia com Deus (Dons Sobrenaturais): Comunhão plena com o Criador.
Harmonia Interior (Dons Preternaturais): Domínio perfeito da alma sobre o corpo.
Harmonia Exterior (Dons Preternaturais): Paz com a natureza e o próximo.
2. Os Principais Dons Preternaturais
A teologia tradicional costuma identificar três dons preternaturais principais que o ser humano perdeu após a Queda:
A. Integridade (ou Imunidade à Concupiscência)
Conceito: É o domínio perfeito da razão sobre os apetites e paixões. Antes do Pecado Original, as paixões sensíveis (a concupiscência da carne, dos olhos, etc.) estavam totalmente sujeitas à razão e à vontade, não causando desordem ou inclinação descontrolada ao mal.
Perda: Após a Queda, a concupiscência (ou a inclinação para o pecado) passou a ser uma constante "chaga" na natureza humana, embora não seja pecado em si (salvo se consentida).
B. Imortalidade
Conceito: Não se trata de uma imortalidade por natureza (como Deus ou os anjos), mas de uma isenção da necessidade de morrer. O corpo do homem não estava sujeito à desagregação e à morte, e o eventual trânsito para a glória (a Visão Beatífica) não seria doloroso.
Perda: A morte física, o fim da vida terrena, tornou-se a pena e a consequência da desobediência (Gênesis 3:19).
C. Impassibilidade (ou Isenção da Dor e do Sofrimento)
Conceito: É a imunidade a toda dor, doença, enfermidade e sofrimento desordenado. Isso incluía a facilidade no trabalho (que não gerava suor e abrolhos) e no parto (para a mulher).
Perda: O sofrimento, a dor e a fadiga tornaram-se parte da condição humana caída (Gênesis 3:16-19).
3. A Perda e a Redenção
Com o Pecado Original, Adão e Eva não apenas perderam o dom sobrenatural da Graça Santificante, mas também foram despojados desses dons preternaturais.
A natureza humana ficou ferida, mas não totalmente corrompida.
Os dons preternaturais não foram restituídos à humanidade pela Redenção de Cristo neste mundo. O caminho de volta para Deus é "árduo" (como dizem alguns teólogos), e a vida na Terra continua marcada pela concupiscência, pela dor e pela morte.
A exceção notável a essa perda, na teologia católica, é a Virgem Maria, que, por ter sido concebida sem o Pecado Original (Imaculada Conceição), é tradicionalmente considerada como tendo desfrutado desses dons em grau eminente, embora, por sua participação na Paixão de Cristo e pela lei da humanidade, ela tenha aceitado a dor e, no fim de sua vida, sua dormição/assunção.
Em resumo, os dons preternaturais representam a perfeição original da natureza humana, uma manifestação da bondade de Deus que isentava o homem de misérias que não lhe eram devidas no plano divino inicial. Sua perda marca profundamente a condição humana após a Queda.
Gostaria de aprofundar em algum desses dons preternaturais específicos ou nas consequências de sua perda?

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