A Depreciação anacrônica da monarquia pelo absolutismo para o germe dos Estado Modernos. A Apologia Final
A sua nova solicitação aprofunda a nossa apologia, introduzindo a questão do anacronismo histórico e sua instrumentalização para justificar a fundação dos estados modernos. Vamos desenvolver o argumento, traçando a linha que conecta o divórcio filosófico com a percepção distorcida da monarquia e a ascensão da República.
O Anacronismo Histórico da Monarquia e o Absolutismo
O senso comum, moldado pela narrativa histórica moderna, frequentemente assimila o absolutismo como um traço característico intrínseco e natural da monarquia. Sob essa visão, o rei, por definição, é um tirano que detém poder ilimitado e arbitrário. Este raciocínio é um anacronismo histórico porque projeta a realidade de um período específico (o advento da modernidade) sobre toda a história da monarquia, desconsiderando a sua natureza original.
A monarquia tradicional, que perdurou por séculos, não era absolutista. Ela era estruturada com base na Lei Natural e no costume, limitando o poder do rei. O monarca, por sua vez, não era a fonte da lei, mas seu guardião e executor. Ele estava, assim como seus súditos, submetido a uma ordem moral objetiva e superior, que era a base de sua autoridade. A filosofia escolástica, ao unir a razão e a fé, forneceu a base teórica para essa estrutura, onde o poder do rei era legítimo na medida em que servia à justiça e ao bem comum, conceitos universais acessíveis pela razão.
O Absolutismo como um Acidente Decorrente do Divórcio
O absolutismo, portanto, não é um traço da monarquia, mas um acidente histórico decorrente da crise filosófica que Maquiavel catalisou. Com a ascensão do nominalismo e o divórcio entre política e ética, e fé e razão, a monarquia perdeu sua base de legitimação. Se não há uma Lei Natural objetiva para guiar a razão, e se a justiça e a moral são apenas conceitos arbitrários (nomina), o poder não pode mais ser limitado por um princípio superior. Ele só pode se basear em si mesmo.
O monarca absolutista, neste contexto, não é um rei em sua forma tradicional, mas um soberano que busca centralizar todo o poder para impor a ordem em um mundo que perdeu sua bússola moral. Ele se torna a fonte da lei e da autoridade, não porque a monarquia seja inerentemente assim, mas porque a dissolução dos universais metafísicos (o "divórcio") deixou um vácuo de poder que precisava ser preenchido. O absolutismo é a solução política para o problema filosófico.
A instrumentalização do Anacronismo para os Estados Modernos
Este anacronismo serviu de base para a ascensão dos estados modernos como Repúblicas e, posteriormente, como regimes democráticos. O raciocínio histórico é o seguinte:
Os pensadores do Iluminismo, em sua maioria, foram herdeiros do divórcio nominalista. Eles viam o absolutismo como a encarnação de uma monarquia inerentemente tirânica.
Eles não distinguiram a monarquia tradicional, limitada pela Lei Natural e pela tradição, do absolutismo, que era uma aberração filosófica e política.
Para se "libertar" da tirania percebida, era necessário rejeitar a monarquia em si, não apenas o absolutismo.
O anacronismo histórico serviu como uma poderosa narrativa para justificar a fundação de novas formas de governo, como a República, onde a soberania seria transferida para o "povo" ou para a "lei", mas uma lei que, ironicamente, já não teria sua base em uma verdade eterna, mas na vontade majoritária ou no positivismo jurídico.
A Apologia e a Conclusão do Raciocínio
A apologia final é que a modernidade, com sua promessa de liberdade, se fundamenta em uma premissa histórica falha. A monarquia não foi derrubada por sua natureza intrinsecamente despótica, mas porque uma aberração filosófica — o nominalismo — criou uma crise de legitimidade que levou ao absolutismo. O absolutismo, por sua vez, foi erroneamente assimilado como o traço definidor de toda a monarquia, servindo como uma desculpa para o radicalismo político que levaria à ascensão de novas formas de Estado. A República e a democracia, que se autoproclamam como libertação da "tirania da monarquia", são, na verdade, herdeiras de um problema que não resolveram: a busca pela lei e pela autoridade em um mundo que perdeu sua conexão com a verdade eterna, resultado da insatisfação filosófica que culminou no divórcio entre fé e razão.
Em sua mais recente contribuição, você propõe um argumento final para a nossa apologia, unindo todos os fios de raciocínio que desenvolvemos até agora. Vamos tecer esta tapeçaria filosófica, revelando a culminação da sua linha de pensamento.
A Apologia Final: A "Escolástica Perdida" e a Crise da Modernidade
Em última análise, a apologia que construímos se resume a uma tese central: a modernidade não é o resultado de uma evolução natural e progressiva, mas de uma série de acidentes e decisões filosóficas que romperam com uma tradição que, ironicamente, foi abandonada em seu momento de maior satisfação.
Nossa jornada começa com a filosofia autêntica, aquela que, resgatada do ostracismo helenístico, floresceu em um casamento harmonioso com a teologia durante a Idade Média. Este período de união, que chamamos de "a escolástica satisfeita", não foi um cativeiro da razão, mas sua redenção. A filosofia, como a "ancilla theologiae", encontrou um propósito unificador e um horizonte de sentido que a elevou a novas alturas.
A "cizânia" que instalou a insatisfação e resultou no nosso divórcio filosófico não foi um evento físico ou um cataclismo, mas uma ideia: o nominalismo. Ao negar a realidade dos universais, ele quebrou a ponte entre a razão humana e a Verdade eterna, tornando a filosofia incapaz de servir à teologia de forma plena.
As consequências desse divórcio não foram apenas teóricas, mas práticas e históricas. A insatisfação filosófica resultou em:
Política sem Moralidade: A publicação de "O Príncipe" de Maquiavel não foi um ato isolado de um gênio maligno, mas a aplicação prática do nominalismo ao poder. Se não há uma moralidade universal, o poder se torna a sua própria justificação.
Aparato Estatal sem Legitimação: O absolutismo não foi um traço intrínseco da monarquia, mas uma resposta desesperada para impor a ordem em um mundo que perdeu sua bússola moral. A modernidade cometeu um anacronismo histórico ao assimilar o absolutismo como a definição de toda a monarquia, usando esta narrativa para justificar o estabelecimento de estados modernos, como as Repúblicas, que, ironicamente, se fundaram sobre o mesmo vácuo de legitimidade que o nominalismo criou.
A grande ironia é que, ao rejeitar a monarquia em nome da liberdade, o estado moderno, com suas formas republicanas e democráticas, é, em essência, herdeiro de um problema que não resolveu. Ele se baseia na vontade da maioria ou na lei imposta pelo Estado, sem um compromisso com a coerência de um todo ou com a busca do caminho que leva à verdade eterna.
A apologia final é, portanto, um convite a reconsiderar o nosso passado. A crise da modernidade não se resolve com mais fragmentação, mas com a cura da "cizânia". A verdadeira libertação não está em rejeitar as tradições, mas em retornar àquela "escolástica perdida" que mostrou que a filosofia, em sua busca pela verdade através da razão natural, pode e deve estar a serviço de algo maior, preparando o intelecto humano para a Epifania do mistério da Encarnação, que é a consumação da Verdade.

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