Do que é realmente próprio nosso, A fé por menor que seja contém o grão da salvação, a seiva da videira verdadeira, o óleo da Oliveira.

 


Sua proclamação "Do que é próprio nosso, a fé. Nem a vida nos pertence, nos pertencemos a fé ao mesmo tempo que é o único bem propriamente dito nosso" apresenta uma profunda reflexão sobre a natureza da fé e sua relação com a existência humana. Vamos analisar e desenvolver os pontos principais dessa apologia.

A Fé como Propriedade Intrínseca

A frase inicial sugere que, embora a vida seja um dom recebido, a fé é a única posse verdadeira e intrínseca do ser humano. Essa ideia ecoa ensinamentos de diversas tradições espirituais, especialmente a cristã.

  • A vida como dádiva: A Bíblia ensina que Deus é o Criador e doador da vida. O Salmo 24:1 afirma: "Ao Senhor pertence a terra e tudo o que nela há, o mundo e todos os que nele vivem". A nossa existência, portanto, não é nossa por direito, mas uma concessão divina.

  • A fé como resposta e posse: A fé, nesse contexto, não é apenas uma crença passiva. Ela é a resposta ativa e pessoal do ser humano à dádiva da vida. É um ato de apropriação do amor e da graça divinos. Essa resposta, por ser um ato de livre-arbítrio, se torna a única coisa que realmente "nos pertence". É a nossa escolha, a nossa jornada interior. A fé nos diferencia de meras criaturas e nos torna participantes ativos da relação com o divino.

A Parábola do Grão de Mostarda

A menção ao grão de mostarda, uma referência direta a Jesus (Mateus 17:20), reforça a ideia de que a dimensão da fé não está relacionada ao seu tamanho, mas à sua potência e potencial.

  • Potencial de crescimento: O grão de mostarda, minúsculo em sua origem, cresce e se torna uma das maiores hortaliças, capaz de abrigar pássaros. Isso simboliza que mesmo uma pequena quantidade de fé pode ter um impacto imenso. Ela pode transformar vidas, mover montanhas e gerar frutos que beneficiam não apenas o indivíduo, mas também a comunidade ao seu redor.

  • Conexão com o divino: A fé, por menor que seja, tem a capacidade de "refletir a quem nos dá a Vida". Isso significa que ela nos permite enxergar e compreender o propósito divino para a nossa existência. Através da fé, o ser humano é capaz de vislumbrar a fonte de sua própria vida e, assim, se alinhar com a vontade de Deus.

O Pertencimento a Cristo

A conclusão do raciocínio, "e por isto o pertencemos, pois fomos por ele criado, a saber, em Cristo, por Cristo e para Cristo", é a coroação da apologia, ancorando a reflexão na teologia cristã.

  • Fundamento da criação: A epístola de Paulo aos Colossenses (1:16) é o fundamento dessa afirmação: "Pois nele foram criadas todas as coisas, nos céus e na terra, as visíveis e as invisíveis... todas as coisas foram criadas por ele e para ele." Esse versículo estabelece a centralidade de Cristo na criação e na história da salvação.

  • Adoção e redenção: O pertencimento a Cristo não é apenas uma questão de criação, mas também de adoção e redenção. Por meio da fé, o ser humano é reconciliado com Deus e se torna co-herdeiro com Cristo. A vida, que antes era uma dádiva, se torna uma vida em Cristo, com propósito e destino eternos.


Considerações Finais

A proclamação é uma poderosa síntese teológica que aborda o valor intrínseco da fé na vida humana. A fé não é apenas uma crença em algo distante, mas o principal meio pelo qual o ser humano se apropria de sua identidade e propósito.

  1. A fé como identidade: Sua proclamação sugere que, em vez de sermos definidos por nossas posses, status ou realizações, somos definidos pela nossa fé. Ela é a essência do que somos, a resposta ao chamado divino.

  2. A fé como ação: A ideia de que "nos pertencemos à fé" nos leva a uma ação contínua de nutrição e crescimento. A fé não é um estado estático, mas uma jornada dinâmica que nos leva a um relacionamento mais profundo com Deus.

Em essência, a mensagem é que a fé é o nosso tesouro mais valioso. Ela nos conecta à fonte da vida e nos dá a verdadeira liberdade, pois nos permite viver não para nós mesmos, mas para Aquele que nos criou.

A proclamação nos convida a refletir: como você tem cultivado essa posse que é a sua fé?

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

A Teologia da Salvação em Linguagem Matemática

Os dons preternaturais segundo a tradição cristã.

Arqueologia da Consciência Religiosa: A primazia do Singular, Deus & Religião em Stricto Sensu