O Problema dos Universais e a reabilitação da Querela como tapeação genérica e verborrágica. O Nominalismo como Nova Sofística.
O seu ponto de vista desafia a visão tradicional do problema dos universais como uma questão puramente metafísica ou histórica, posicionando-o como um epicentro de uma crise contemporânea, alimentada por um tipo de sofística nominalista. Sua afirmação de que "o problema não é natural, ele até existe, mas é pura poesia, obra da cognição abstrata humana" sugere que a dificuldade reside não na existência dos universais em si, mas na forma como a linguagem e o pensamento humanos os manipulam, permitindo uma espécie de tapeação que, no final das contas, serve a interesses de poder ou simplesmente à negação da realidade objetiva.
O Nominalismo como Nova Sofística
O cerne do seu argumento reside na ideia de que o nominalismo, ao negar a existência real de universais (como a "humanidade" ou a "beleza"), abre as portas para uma reinterpretação da realidade que é, em essência, arbitrária. Se os nomes são apenas etiquetas que aplicamos a coisas particulares e não correspondem a algo real fora da nossa mente, então a conexão entre linguagem e realidade se torna frágil. Essa fragilidade é a "licença poética" que permite a restauração da sofística.
Os sofistas da Grécia Antiga eram conhecidos por sua habilidade em usar a retórica para persuadir, muitas vezes desvinculando o discurso da busca pela verdade. Para eles, o que importava era a eficácia do argumento, não sua correspondência com a realidade. Ao transpor essa ideia para o nominalismo, você sugere que, ao negar a existência de universais, o nominalismo oferece as ferramentas para um discurso que não precisa se ancorar em verdades compartilhadas. Se a justiça não é uma ideia universal, mas apenas um nome que aplicamos a certos atos, então a definição de "justiça" pode ser negociada e manipulada de acordo com a conveniência.
A Crise Transmitida: Do Problema Histórico à Realidade Contemporânea
A sua tese de que o problema dos universais é transmitido como um mero "conteúdo da história da filosofia" é crucial para entender a profundidade da crise que você descreve. Em vez de ser um debate superado entre Platão, Aristóteles e os nominalistas medievais, ele ressurge em diversas áreas da sociedade, como na política, no direito e nas ciências sociais.
A crise reside no fato de que a discussão, que já foi ontológica e metafísica, agora se manifesta na esfera pública em debates onde a própria realidade é posta em questão. A negação de universais, como a verdade, a objetividade ou a própria natureza humana, leva a um cenário onde "fatos alternativos" e "narrativas" podem ser construídos e defendidos com a mesma legitimidade que a busca pela verdade objetiva. Isso não é um problema filosófico abstrato; é a base de uma crise de confiança nas instituições e no conhecimento.
Na Política: A negação de universais como a verdade e a objetividade permite que a retórica política se desvincule da realidade. A mentira, ou a "pós-verdade", não é vista como uma distorção da realidade, mas como uma narrativa tão válida quanto qualquer outra. A ideia de que não há uma "natureza" do bem comum, mas apenas interesses de grupos particulares, é um eco direto do nominalismo aplicado à política.
No Direito: Se a justiça e os direitos não são universais, mas meras construções sociais, então eles podem ser desmantelados ou alterados conforme o poder de quem os defende. A busca por um ideal de justiça universal é substituída por uma disputa de poder sobre quem tem a autoridade para nomear e definir o que é justo.
Nas Ciências Sociais e no Discurso Público: A negação de categorias universais pode levar a um relativismo extremo, onde qualquer tentativa de generalizar ou identificar padrões na natureza humana ou na sociedade é vista como uma forma de opressão ou preconceito. A diversidade é celebrada, mas a busca por um denominador comum ou uma natureza compartilhada é vista com suspeita, o que pode fragmentar ainda mais a sociedade.
Considerações Finais: O Problema é a Tapeação, Não a Realidade
O seu argumento nos força a olhar para o problema dos universais não como uma curiosidade histórica, mas como uma ferramenta de análise crítica para o nosso tempo. A "tapeação sofística" que você menciona é, em última análise, a capacidade de usar a linguagem para construir realidades que nos convêm, em vez de descrever uma realidade que nos é dada. O nominalismo, nessa perspectiva, não é apenas uma tese filosófica, mas um método que se tornou onipresente, corroendo a base do discurso racional e da busca por verdades compartilhadas.
O problema não são os universais em si; eles podem até ser "pura poesia" da nossa cognição. O verdadeiro problema é a desonestidade intelectual de usar essa "poesia" para confundir e manipular. Ao invés de reconhecer os universais como um produto da nossa capacidade de abstrair e categorizar o mundo, o nominalismo os nega, retirando o chão de qualquer discussão séria sobre o que é verdade, justiça ou bem. Essa é a crise que não foi superada: a crise de uma sociedade que se tornou incapaz de distinguir entre o que é real e o que é apenas uma construção retórica, uma tapeação.

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