Cartografia e a representação de mundo como vontade
A partir da história da cartografia como representação de mundo e da obra: O Mundo como Vontade e Representação, do alemão, Arthur Schopenhauer. Que paralelos podemos estabelecer entre esses dois eixos de acontecimentos? Discorra para contextualizar o assunto, desenvolva o raciocínio e formule um argumento sobre a correlação dos dois fatos e quais implicações da revolução copernicana podemos inferir na elaboração de sua obra capital?
🗺️ Cartografia, Representação e a Metafísica de Schopenhauer
O paralelo entre a história da cartografia como representação do mundo e a obra capital de Arthur Schopenhauer, O Mundo como Vontade e Representação (1819), reside essencialmente na evolução e crítica do conceito de representação (ou fenômeno) e na busca por aquilo que reside além da mera aparência.
Contextualização e Desenvolvimento do Raciocínio
1. A Cartografia como História da Representação
A história da cartografia é, em grande medida, a história de como a humanidade tentou representar o mundo de acordo com seus conhecimentos, crenças e necessidades da época.
Representações Antigas/Míticas: Os primeiros mapas, como o de Anaximandro (Terra como um disco flutuante) ou os mapas-múndi medievais (como o Mappa Mundi T-O com centro em Jerusalém), não eram apenas geográficos, mas cosmológicos e teológicos. Eles representavam o mundo não apenas como ele é medido, mas como ele é entendido sob uma ótica mítica, religiosa ou limitada pelo conhecimento empírico.
Avanço Empírico/Científico: Com os gregos (Ptolomeu, Eratóstenes), o Renascimento e as Grandes Navegações (projeções como a de Mercator), a cartografia se torna progressivamente mais científica, baseada em observações, cálculos astronômicos (astrolábio, luneta) e medições rigorosas (paralelos e meridianos). O mapa passa de uma representação do cosmos para uma representação cada vez mais precisa do espaço terrestre, espelhando o desenvolvimento do conhecimento objetivo. No entanto, um mapa é sempre uma representação (fenômeno) e não o território em si (coisa-em-si), sujeito a projeções, escalas e escolhas.
2. Schopenhauer: O Mundo como Representação
Schopenhauer inicia sua obra com a famosa frase: "O mundo é minha representação."
A Representação (Fenômeno): Para Schopenhauer, influenciado por Kant, tudo o que conhecemos do mundo exterior (os objetos, o nosso corpo, a sucessão de eventos) existe apenas para um sujeito que percebe. Essa é a representação, o mundo como fenômeno, que é estruturado pelas formas a priori do conhecimento (espaço, tempo e causalidade, que ele subsume no Princípio de Razão Suficiente). A cartografia, em sua função de medir, projetar e descrever o mundo observável, opera totalmente dentro desse domínio da Representação. Os mapas são, portanto, as representações mais puras da representação do mundo.
A Vontade (Coisa-em-si): Schopenhauer, porém, vai além de Kant ao identificar o que está por trás do fenômeno: a Vontade (Wille). Através da introspecção, do conhecimento do próprio corpo (que é, ao mesmo tempo, objeto/representação e o lugar da experiência imediata do querer), o filósofo postula que a essência metafísica do mundo, a Coisa-em-si (o númeno), é uma força cega, irracional e incessante que se manifesta em todos os fenômenos, desde a gravidade até os impulsos humanos.
Argumento sobre a Correlação
O paralelo fundamental é este: a cartografia acompanha a evolução da Representação, e a filosofia de Schopenhauer oferece a metacríca final dessa Representação.
A história da cartografia mostra a progressiva sofisticação da Representação do mundo: ela se torna menos mítica e mais empírica/científica, mas permanece uma Representação. O mapa, mesmo o mais preciso, é uma superfície (fenômeno) do mundo, não sua profundidade (essência).
Schopenhauer afirma que o mundo inteiro é exatamente essa superfície (Representação) e questiona: o que está subjacente? Sua filosofia é o movimento de transição do mapa (o mundo como Representação) para a terra inefável e cega que o mapa tenta em vão cobrir (o mundo como Vontade). O mapa é uma necessidade do sujeito cognoscente (intelecto) para organizar o mundo no espaço e no tempo; a Vontade é o princípio que move o sujeito e o objeto, sendo fundamentalmente incognoscível pela razão.
Correlação: A cartografia é o registro histórico de como o intelecto humano organiza o mundo como objeto (mapa) para o sujeito, enquanto Schopenhauer desvela o princípio metafísico cego (Vontade) que reside tanto no objeto mapeado quanto no sujeito que mapeia. A história do mapa ilustra o primeiro livro de O Mundo como Vontade e Representação; a filosofia de Schopenhauer é o que está escrito nos livros subsequentes.
Implicações da Revolução Copernicana na Obra de Schopenhauer
A "Revolução Copernicana" é um termo originalmente usado por Immanuel Kant para descrever sua própria virada filosófica: em vez de o conhecimento se regular pelos objetos, os objetos é que se regulam pelas nossas faculdades de conhecer. É um marco do idealismo transcendental.
Schopenhauer, que se via como o verdadeiro herdeiro de Kant, incorporou e radicalizou essa revolução:
O Fim do Realismo Ingênuo: A Revolução Copernicana (kantiana) implica que o mundo que conhecemos é fenomênico, estruturado pelas formas a priori do nosso intelecto. Schopenhauer aceita integralmente esse ponto, fazendo do aforismo "O mundo é minha representação" o primeiro princípio de sua obra. Ele destrói o realismo ingênuo que pensa que o mundo é exatamente o que ele parece ser, assim como Copérnico destruiu a crença de que a Terra está no centro.
O Mundo se Regula pelo Sujeito: Se Kant descentralizou o objeto em favor da estrutura do sujeito (espaço, tempo, categorias), Schopenhauer reitera que o objeto (o mundo como Representação) só existe em relação ao sujeito. Não há mapa sem o cartógrafo. A Representação não é uma cópia passiva do mundo, mas um produto ativo da nossa consciência.
A Descentralização Final: A Supremacia da Vontade: Schopenhauer realiza uma Segunda Revolução Copernicana, uma revolução schopenhaueriana. Kant colocou a razão (intelecto) no centro da Representação. Schopenhauer, por sua vez, destrona a Razão/Intelecto e coloca a Vontade no centro de tudo, inclusive do próprio intelecto.
Implicação: A Razão (Intelecto) – a faculdade que cria a ciência, o mapa, o conhecimento objetivo – não é a essência do ser humano, mas apenas um instrumento a serviço da Vontade (o impulso cego de vida, o desejo). Assim como Copérnico tirou a Terra do centro do Universo, Schopenhauer tira o Intelecto (a razão iluminista) do centro do ser humano, revelando uma força mais profunda e irracional.
Portanto, a Revolução Copernicana (kantiana) é a condição de possibilidade do primeiro livro de O Mundo como Vontade e Representação (o mundo como Representação). A revolução schopenhaueriana é a conclusão da obra: a revelação de que o mundo e o próprio intelecto são manifestações de uma essência cega e universal: a Vontade.
Para ver como a cartografia evoluiu em sua representação da Terra, confira este vídeo:
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