O Tempo é Tripartido / Análise Poética
O Tempo é Tripartido
Não é circular, não é linear nem é espiralado
O Tempo que a modernidade empenhou-se
Em construir nos últimos séculos é o problema
O tempo foi lançado com a matéria no espaço
A Criação é parabólica, as noções de tempo
Arcaico foram devoradas na Titanomaquia
O duelo de gigantes Gaia, Urano e Cronos
O caos como princípio tendo a ordem por destino
A imersão no tempo foi concebida pelo avesso
Tudo isso para dizer que há um calendário litúrgico
Entretanto surgiu também um calendário civil profano
Datas comemorativas como essa foram impostas aos montes
Quer ver o abismo que separa esses dois calendários distintos
Embora aparentemente corram concomitantes sem divisas
O tempo é como o barro pode profanado ou consagrado
O poema "O Tempo é tripartido" é uma peça de densidade filosófica e mítica, que utiliza o verso livre para tensionar a relação entre a física, a metafísica e a sociologia do tempo. Abaixo, apresento uma análise detalhada estruturada em três frentes:
1. Análise Poética e Estrutural
O poema foge das formas fixas, adotando uma estrutura de versos livres que mimetiza a fluidez do tema.
Linguagem e Léxico: O autor transita entre termos científicos e matemáticos (linear, parabólica, matéria, espaço) e um vocabulário clássico-religioso (Titanomaquia, litúrgico, sagrado). Essa mistura cria um efeito de erudição que serve para sustentar a tese do poema.
Imagens Centrais: A imagem do tempo como barro ao final é a chave metafórica: o tempo não tem uma forma intrínseca (linear ou circular), mas é uma matéria plástica moldada pela intenção humana ou divina.
Oximoro e Contradição: O poema sugere que o tempo foi "concebido pelo avesso", indicando que a percepção moderna é uma distorção de uma natureza primordial.
2. Crítica Literária: O Tempo como Construção
O poema dialoga diretamente com a Crise da Modernidade. Ele critica a tentativa racionalista de "construir" uma percepção temporal que ignora a origem cósmica da existência.
A Geometria do Tempo
O eu lírico rejeita as três formas clássicas de visualização temporal:
Linear: O progresso infinito (visão positivista).
Circular: O eterno retorno (visão mítica clássica).
Espiralado: A síntese dialética.
Ao propor que a Criação é parabólica, o autor sugere um movimento que tem um ponto de origem, uma ascensão (ápice) e um retorno ou queda, evocando a ideia de uma trajetória que volta para algo, mas não necessariamente para o mesmo lugar.
O Conflito Mítico
A menção à Titanomaquia é o ponto alto da crítica. Ao citar Gaia, Urano e Cronos, o poema situa a "ordem" atual como o resultado de um conflito violento entre o Caos e o Destino. A "ordem por destino" sugere uma teleologia: o universo não caminha ao acaso, mas para um propósito final.
3. Comentário Pertinente: O Sagrado vs. O Profano
O cerne do poema reside na dicotomia entre o Calendário Litúrgico e o Calendário Civil Profano.
A Profanação do Tempo: O autor critica a "imposição" de datas comemorativas civis (o tempo produtivo, o tempo do consumo, o feriado vazio). Esse é o tempo "civil", que corre na superfície.
A Consagração do Tempo: O tempo litúrgico é o tempo do Kairos (o momento oportuno, o tempo de Deus), que não segue o relógio de pulso, mas o ritmo do espírito.
O Abismo Invisível: O poema alerta para o fato de que vivemos em dois mundos simultâneos: um que conta horas para o trabalho e outro que deveria contar momentos para a eternidade. O "abismo" mencionado é a falta de conexão espiritual do homem moderno com o passar dos dias.
Nota Reflexiva: O poema termina com um convite à responsabilidade. Se o tempo é barro, o homem é o oleiro. A "tripartição" sugerida no título pode ser interpretada como a coexistência do Tempo Físico (espaço-matéria), do Tempo Humano (civil-profano) e do Tempo Divino (litúrgico-sagrado).
Gostaria que eu fizesse uma comparação mais detalhada entre a visão de tempo deste poema e a filosofia de autores como Mircea Eliade (sobre o sagrado e o profano) ou Santo Agostinho?

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