Sem Isso Nem Haveria Coco / Conversa de Selma com Odete
Conversa de Selma com Odete
Não sei porquê essa canção veio-me a memória
É porque é um clássico que caiu no ostracismo
Ou porque fizeram dela tabu ou interdição?
Sem ironia, sarcasmo, polêmica e violência
Não haveria a Graça, o pecado, a aliança
O perdão, a perdição, o prejuízo
A promessa, o Amor e a entrega,
O medo, a sorte, a morte e a Redenção
Não teríamos um pai provedor, uma mãe
Conciliadora, uma arca eterna redentora
Não teríamos o perfeito salvador
Não teríamos vida, escolha livre, em nós
Não haveria bem, mal, falso e verdadeiro
Não haveria Rosário nem Verbo primeiro
Essa é uma composição fascinante que parece flutuar entre a teodiceia (a justificativa do divino) e o existencialismo. O tom "sonolento" que você mencionou talvez venha da sua estrutura de ladainha: uma repetição de negações que, paradoxalmente, afirma a importância de cada conceito citado.
Aqui está uma análise dividida entre a estética do texto e o seu peso literário:
Análise Poética: A Estética da Ausência
O poema utiliza a anáfora (repetição da palavra "Não") para construir um cenário de vácuo absoluto. É uma técnica de "teologia negativa": define-se o que algo é listando tudo o que seria perdido sem a sua existência.
Estrutura de Soneto Modificado: O texto segue a forma clássica de 14 versos (dois quartetos e dois tercetos), mas subverte a rima tradicional em favor do ritmo das ideias. Isso cria uma sensação de letargia meditativa, onde o foco não é o som, mas o peso ontológico das palavras.
Dualismos e Contrastes: A seleção lexical é binária. O autor agrupa conceitos opostos — Graça/Pecado, Bem/Mal, Sorte/Morte — para sugerir que a experiência humana só possui relevância através do conflito e da dualidade.
Ritmo de "Mântra": A ausência de verbos de ação pesada e a predominância de substantivos abstratos conferem ao poema essa característica "sonolenta", quase como uma oração recitada à beira do sono, onde a consciência começa a se desmanchar.
Crítica Literária: O Peso do Legado e do Arbítrio
Do ponto de vista literário, o poema dialoga com a tradição judaico-cristã ocidental, mas o faz de uma perspectiva funcionalista e existencial.
1. A Utilidade do Sagrado
O texto não defende necessariamente a divindade por sua existência metafísica, mas pela sua necessidade narrativa. O eu lírico sugere que, sem essas figuras (Pai, Mãe, Salvador), o vocabulário humano seria empobrecido. Literariamente, é um reconhecimento de que a religião fornece a "gramática" com a qual interpretamos a vida.
2. A Crítica ao Ostracismo
A estrofe introdutória é um metatexto interessante. Ao questionar se a canção caiu no ostracismo ou virou tabu, o autor aponta para uma modernidade que tenta apagar o vocabulário do sagrado para evitar polêmicas. A resposta do poema é que, ao apagar o "Verbo primeiro", apagamos também a capacidade de discernir entre o "falso e o verdadeiro".
3. O Paradoxo da Liberdade
O verso "Não teríamos vida, escolha livre, em nós" é o cerne da obra. O autor propõe que o livre-arbítrio só existe se houver um sistema de valores contra o qual se decidir. Sem a estrutura do "Rosário" ou da "Aliança", a liberdade seria um vazio sem sentido, pois não haveria nada a escolher.
Nota de Estilo: O poema evita a "ironia e o sarcasmo" (como pedido no preâmbulo) para abraçar uma gravidade melancólica. Ele não tenta convencer pelo grito, mas pelo silêncio do que restaria se esses conceitos sumissem.
Conclusão
É uma obra que se situa entre a poesia devocional e a filosofia da linguagem. Ela sugere que a cultura humana é um edifício construído sobre esses "mitos" fundamentais e que, sem eles, não haveria apenas ausência de religião, mas ausência de significado para a própria existência.
Gostaria que eu fizesse uma comparação deste texto com a estrutura de outros sonetos clássicos da literatura lusófona, como os de Camões ou Antero de Quental?

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