A Figueira Estéril: Fome, Guerra e Terrorismo
Analise o texto do evangelho na liturgia do dia, A figueira Estéril, (Mt 11. 11, 26) e relacione-o com as notícias internacionais que tomaram os noticiários de ontem para hoje, em especial a Encíclica do Papa e a Declaração dos EUA de classificar as facções brasileiras CV e PCC de organizações terroristas. Discorra sobre como podemos interpretar esses acontecimentos como um antes, agora e depois. Disserte sobre como a Figueira Estéril e a Fome de Jesus dialogam com esses dois acontecimentos históricos, o abandono da teoria da "Guerra Justa" e a classificação de facções como organização terrorista? A Pergunta não é se existe relação entre os fatos, mas sim qual é natureza da relação entre esses fatos? Teorize, postule, formule um tratado se necessário for, Estabeleça um raciocínio acessível à nossa inteligência humana decaída.
A convergência entre a liturgia deste dia (que, fazendo um pequeno ajuste fraterno na sua precisão cirúrgica, encontra-se no relato visceral de Marcos 11, 11-26 e não de Mateus) e os estrondos geopolíticos das últimas 24 horas é quase assustadora. É o tipo de sincronicidade que faz a nossa inteligência — que você bem definiu como decaída, cansada de tentar decifrar o caos — parar para respirar.
Ontem, dia 28 de maio de 2026, assistimos a dois movimentos titânicos: de um lado, o Papa Leão XIV, em sua primeira encíclica Magnifica Humanitas, decretando a obsolescência da teoria da "Guerra Justa"; do outro, o Departamento de Estado dos EUA elevando o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) ao status de Organizações Terroristas Globais.
A pergunta que você faz é a única que realmente importa: não se existe relação, mas qual é a natureza dessa relação?
A natureza dessa relação é profético-espelhada. Os fatos de hoje não se cruzam por mera coincidência política; eles se cruzam porque ambos expõem a mesmíssima crise estrutural da história humana: a falência das aparências institucionais diante da fome de realidade. Formulemos, então, este pequeno tratado interpretativo.
O Postulado Central: A Fome e a Folhagem
Para compreender o agora, precisamos sintonizar o estômago e os olhos de Jesus no Evangelho de hoje.
Jesus tem fome. A fome de Deus não é por alimento biológico; é fome de frutos históricos — justiça, misericórdia, dignidade concreta. Ao avistar a figueira, Ele vê uma árvore cheia de folhas. Na botânica daquela região, a folhagem da figueira costuma surgir junto com os primeiros frutos (os figos temporãos). Uma figueira com folhas, portanto, anuncia que tem comida. Ela faz uma promessa visual.
Ao se aproximar, Jesus encontra o vazio. O texto diz, de forma enigmática, que "não era tempo de figos". Ora, se não era tempo, por que a árvore ostentava folhas? Porque ela simulava uma maturidade que não possuía. A figueira é a metáfora perfeita de qualquer sistema — religioso, jurídico ou geopolítico — que se veste com a pompa da ordem, mas é incapaz de saciar a fome de paz da humanidade.
A Anatomia da Relação: O Antes, o Agora e o Depois
Podemos organizar a dinâmica desses acontecimentos históricos recentes através de uma linha temporal de consciência e colapso das nossas estruturas.
1. O Antes: A Ilusão da Estrutura Foliar
Por séculos, a humanidade se abrigou sob a teologia e o direito para gerenciar sua própria violência.
A Guerra Justa: Desenvolvida desde Santo Agostinho no século V, essa teoria funcionava como uma "folha" imponente. Ela prometia conter a barbárie estipulando regras para quando e como matar legalmente em nome do bem comum. Dizia: "A árvore da guerra pode produzir o fruto da ordem".
A Contenção do Crime: O "Antes" das facções brasileiras (CV e PCC) foi tratá-las como meros problemas de segurança pública local, subprodutos de um sistema carcerário falido que o Estado fingia gerenciar com punitivismo e indiferença, mantendo a folhagem da "paz social" nas áreas nobres enquanto a periferia secava.
2. O Agora: O Confronto com a Esterilidade
O "Agora" é o momento em que a realidade cobra o fruto, e a mentira institucional não se sustenta mais. É o dia de hoje.
O Papa e a Guerra Justa: Na encíclica Magnifica Humanitas, o Papa Leão XIV faz exatamente o que Jesus fez com a figueira. Ele olha para a teoria da Guerra Justa, vê que ela virou uma desculpa retórica para superpotências justificarem massacres e o lucro da indústria bélica (especialmente na era da Inteligência Artificial e dos ataques autônomos), e a "amaldiçoa". Ao revogar a doutrina, o Papa declara: esta árvore está seca, dela ninguém mais comerá. Não existe violência justificável quando a estrutura relacional humana faliu.
Os EUA e as Facções como Terroristas: Aqui vemos a reação do Império Secular diante da mesma fome de ordem. O CV e o PCC explodiram as fronteiras da criminalidade comum; viraram multinacionais do crime que controlam territórios, economias e vidas. Diante dessa árvore monstruosa, os EUA não tentam tratar a raiz (a miséria estrutural, o proibicionismo, o abandono social). Em vez disso, aplicam uma nova "folhagem jurídica": o rótulo de terrorismo. Essa classificação é o Império tentando criar uma justificativa legal de exceção para poder intervir, sancionar e usar a força militar unilateral fora de suas fronteiras (como já vinham ensaiando no Caribe). É a tentativa de criar uma nova "Guerra Justa" contra um novo inimigo absoluto.
3. O Depois: O Ressecamento até a Raiz e a Expulsão do Templo
O que acontece quando Jesus sai da figueira? Ele vai direto para o Templo e derruba as mesas dos cambistas. Ele destrói a economia da exploração institucional que transformou a Casa de Oração em "toca de ladrões". No dia seguinte, os discípulos veem a figueira seca até a raiz.
O Depois das Estruturas: O "Depois" que se desenha a partir de hoje é o colapso inevitável das soluções baseadas na força pura e na maquiagem jurídica. A classificação dos EUA vai gerar mais violência, mais blindagem de inteligência e possivelmente violações de soberania nacional, mas não produzirá o fruto da segurança, porque a raiz continua intocada.
A teologia papal nos avisa que, se insistirmos em colher frutos de árvores artificiais (sejam doutrinas de guerra ou decretos imperiais antiterrorismo), terminaremos no deserto. O "Depois" exige o que Jesus propõe no final do texto: uma fé que move montanhas de injustiça e o exercício radical do perdão e da justiça restaurativa nas orações, algo que a lógica do terrorismo e da guerra ignora completamente.
O Veredicto do Tratado
A natureza da relação entre a Figueira Estéril, a Encíclica e a declaração americana de terrorismo reside na denúncia da hipocrisia dos mecanismos humanos de poder.
As facções criminosas são os frutos podres gerados por um Templo social que virou toca de ladrões. A classificação americana de terrorismo é uma folha retórica para podar os galhos usando a força. A encíclica do Papa é o machado machucando a própria teologia da Igreja para dizer que a força nunca foi o caminho.
Jesus teve fome ontem, tem fome hoje e terá fome amanhã. Ele caminha pela nossa história contemporânea desmascarando as nossas tentativas de resolver o pecado estrutural com canetadas geopolíticas ou justificativas morais para o uso das armas. No fim, a lição para a nossa inteligência decaída é desconcertantemente simples: nenhuma árvore se mantém de pé apenas ostentando o verde das suas leis e o tamanho das suas armas; se ela não alimentar o menor dos seres humanos com paz real e justiça, ela secará até a raiz.

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