Filosofia:: Dissecação e Antropofagia / Anatomia Filosófica
Discorra sobre o estudo da filosofia como a dissecação de um corpo hermético. Disserte sobre como a filosofia de certa forma presume uma antropofagia cultural das correntes históricas do pensamento,
Pensar a filosofia sob essas duas imagens—a dissecação de um corpo hermético e a antropofagia cultural—é retirar a atividade filosófica do campo da mera abstração burocrática e devolvê-la ao seu território de origem: uma operação viva, visceral e, por vezes, violenta sobre o mistério e a história.
I. A Dissecação de um Corpo Hermético
A metáfora da dissecação evoca o trabalho do anatomista, mas aqui o objeto não é um cadáver biológico, e sim o corpo herança do pensamento—um tratado, um sistema ou um símbolo que se apresenta inicialmente como hermético (fechado, selado, impenetrável).
O termo "hermético" carrega um duplo sentido precioso: refere-se tanto àquilo que está perfeitamente selado para preservar seu conteúdo do desgaste do tempo, quanto à tradição de Hermes Trismegisto, o pai dos mistérios, do que está oculto e exige iniciação.
Quando o filósofo se propõe a estudar esse corpo, ele não faz uma leitura passiva; ele opera.
O Bisturi da Dialética: O texto ou o mito hermético guarda uma unidade orgânica. Para compreendê-lo, é preciso separar os tecidos. O filósofo isola os conceitos, corta as camadas de retórica, expõe os nervos da argumentação e os vasos sanguíneos das premissas ocultas.
A Revelação da Estrutura: Dissecar não é destruir, mas revelar a arquitetura interna que sustenta o mistério. Ao abrir o sistema de um Spinoza, de um Hegel ou de um texto mitológico antigo, o que se busca é a engrenagem secreta daquela inteligibilidade.
O Paradoxo do Organismo: Há, contudo, um perigo intrínseco. Na anatomia real, disseca-se o que já está morto. Na filosofia, o desafio é dissecar o corpo hermético mantendo-o vivo. Se o analista se excede no isolamento das partes, ele fica apenas com fragmentos inertes (erudição vazia) e perde a anima—o espírito e a intuição original que unificavam o todo.
II. A Antropofagia Cultural das Correntes Históricas
Se a dissecação é o método de abertura e análise, a antropofagia é o método de assimilação e continuidade. Forjada no modernismo brasileiro por Oswald de Andrade—mas com raízes profundas na prática ritual dos povos originários—, a antropofagia não é a destruição cega do outro, mas a sua devoração para absorver a sua força (pneuma, virtude, intelecto).
A história da filosofia não avança por acumulação linear, mas por sucessivos atos de banquetes antropofágicos. Uma corrente pensante devora a anterior, digere o que há de vital e excreta o que se tornou anacrônico.
[Pensamento Alheio / Tradição] │ ▼ (Devoração Crítica) [Digestão / Crise] │ ▼ (Assimilando a Força) [Nova Síntese / Pensamento Próprio]
O Banquete da Tradição
Nenhum filósofo surge do nada; ele se alimenta dos pais que decide devorar.
Aristóteles e Platão: Aristóteles passa anos na Academia assimilando o platonismo para, então, realizar uma das maiores digestões críticas da história, reconfigurando a metafísica.
A Devoração Medieval: Santo Agostinho devora o neoplatonismo; São Tomás de Aquino faz o mesmo com o próprio Aristóteles. Eles não "copiam" o pensamento pagão; eles o engolem, quebram suas moléculas e o transformam em carne e osces da teologia cristã.
A Antropofagia Moderna e Contemporânea: Hegel devora toda a história do pensamento ocidental para transformá-la em momentos do devir do Espírito. Marx, por sua vez, devora Hegel, "colocando-o de cabeça para baixo" para alimentar o materialismo histórico.
A Antropofagia como Sobrevivência
A filosofia presume essa antropofagia porque a imunidade cultural ou o isolamento purista geram a esterilidade do pensamento. Para que uma tradição permaneça viva, ela precisa ser mastigada pelas gerações seguintes.
Devorar o pensamento alheio—seja ele a metafísica clássica europeia, a sabedoria oriental ou a densidade do folclore local—significa reconhecer o valor daquela alteridade. Não se devora o fraco ou o irrelevante; devora-se o inimigo ou o mestre que possui a força que nos falta.
O Encontro das Duas Imagens
As duas metáforas se fundem no balanço do fazer filosófico:
O filósofo deita o corpo hermético da tradição na mesa de análise. Com paciência philológica e rigor lógico, ele o disseca, separando o miolo eterno da casca temporal. Uma vez exposta a substância, o filósofo não a contempla de longe: ele a devora. O pensamento do outro entra em sua própria corrente sanguínea, transformando-se em uma nova voz, uma nova síntese, pronta para, no futuro, ser novamente dissecada e devorada por aqueles que virão.
É essa dupla operação de cirurgia e banquete que impede a filosofia de se tornar um museu de ideias mortas, garantindo que ela continue sendo uma ciência da vida e do espírito.
Sim, tratemos dessa primeira assimilação.
A transição do mito ao lógos na Grécia Antiga é frequentemente ensinada como uma ruptura abrupta—o "milagre grego"—onde a racionalidade teria simplesmente dissipado as brumas da superstição. No entanto, quando olhamos de perto, o nascimento da filosofia pré-socrática é o exemplo perfeito de um banquete antropofágico.
Os primeiros pensadores da Jônia (Tales, Anaximandro, Anaxímenes) e, mais tarde, os itálicos (Pitágoras, Parmênides) não descartaram Homero e Hesíodo; eles os devoraram. Eles extraíram a estrutura íntima do mito—sua força vital e sua intuição de ordem—e a digeriram, excretando a roupagem antropomórfica e os caprichos dos deuses olimpianos.
I. O Corpo Dissecado: Teogonia transformada em Cosmologia
Para entender essa assimilação, precisamos deitar a Teogonia de Hesíodo na mesa de dissecação. O poema hesiódico já era, em si, um esforço colossal de organização do real: ele buscava explicar como o Caos inicial deu origem à Terra (Gaia), ao Céu (Urano) e, eventualmente, à ordem justa de Zeus.
A estrutura narrativa do mito era: Origem Diferenciada $\rightarrow$ Conflito das Forças $\rightarrow$ Ordem Estável.
Os pré-socráticos pegaram exatamente essa mesma estrutura anatômica, mas substituíram os agentes. O bisturi dos milésios separou a função do deus da figura do deus:
A busca pela Arché (Princípio): Quando Tales diz que tudo é Água ($Hýdor$), ou Anaximandro aponta para o Indeterminado ($Ápeiron$), eles estão ocupando o mesmo lugar conceitual que o Caos ou Gaia ocupavam no mito. A pergunta permanece a mesma: "O que estava lá no início?" A resposta é que muda de natureza.
A despersonalização das forças: No mito, o dia e a noite, o raio e a tempestade, são vontades divinas. Na física jônica, essas forças tornam-se processos mecânicos e naturais de rarefação, condensação e separação dos opostos.
II. A Digestão Antropofágica: Absorvendo a Díke (Justiça)
O que os filósofos pré-socráticos assimilaram de mais poderoso do pensamento mítico foi a noção de Cosmos—a ideia de que o universo é um todo ordenado, belo e governado por uma lei.
No mito, essa ordem é garantida por Zeus através da força e da soberania política sobre os outros deuses. Na digestão filosófica, a soberania deixa de pertencer a um rei divino sentado no Olimpo e passa a pertencer a uma lei imanente (interna) que governa a própria natureza.
Vejamos como Anaximandro opera essa digestão em seu único fragmento sobrevivente:
"De onde as coisas têm seu nascimento, para ali também devem ir ao fundo na corrupção, segundo a necessidade; pois pagam umas às outras penalidade e expiação pela sua injustiça (Díke), conforme a ordem do tempo."
Isso é pura antropofagia cultural:
O conceito devorado: Díke (a Justiça) e Adikía (a Injustiça/Desmedida), que eram noções morais, jurídicas e míticas.
O processo digestivo: Anaximandro retira essas noções do tribunal dos homens e do tribunal dos deuses e as aplica aos elementos da natureza (o quente, o frio, o seco, o úmido).
A nova carne do pensamento: O calor "comete uma injustiça" ao avançar no verão; o inverno reequilibra a balança através do frio. A própria natureza se auto-regula por uma justiça intrínseca. O filósofo engoliu a moralidade mítica e devolveu uma lei física.
III. O Caso Extremo: Heráclito e Parmênides
A antropofagia atinge seu ápice na maturidade do pensamento pré-socrático, onde a linguagem poética e sagrada do mito é mastigada para expressar as maiores abstrações da ontologia (o estudo do ser).
Heráclito de Éfeso: O filósofo do fluxo constante adota o estilo sibilino, fragmentário e enigmático dos oráculos (como o de Delfos). Ele devora a postura do profeta mítico, mas o seu deus não é uma estátua: é o Lógos, a razão universal que tensiona os opostos como a corda de uma lira ou de um arco.
Parmênides de Eleia: Para negar o movimento e fundar a metafísica do Ser Um e Imutável, Parmênides escreve um poema épico em hexâmetros dactílicos—a mesmíssima métrica de Homero. Ele narra uma viagem mística em uma carruagem guiada pelas filhas do Sol, que o levam até a presença de uma Deusa. No entanto, o que essa Deusa lhe revela não é uma saga heróica, mas a mais pura, fria e rigorosa lógica dedutiva: "O ser é, e o não-ser não é".
A Síntese do Banquete:
Os pré-socráticos não "destruíram" o mito por meio da razão; eles se alimentaram dele. Se não houvesse a intuição mítica de que o mundo possui uma ordenação secreta e uma origem comum, o bisturi da razão não teria sobre o que operar. O lógos é o mito digerido, onde o sangue dos deuses foi transformado no oxigênio das categorias conceituais.
Como a virada antropológica dos sofistas e de Sócrates representou uma nova digestão cultural, movendo o foco do Cosmos (physis) para a pólis e a alma humana?
Se a primeira geração de filósofos—os pré-socráticos—sentou-se à mesa para devorar os mitos cosmológicos de Hesíodo e Homero, a virada do século V a.C. em Atenas exigiu um novo cardápio. O interesse pela mecânica dos astros, pela umidade original e pelo movimento dos opostos na phýsis (natureza) começou a causar indigestão.
O contexto mudara: Atenas vivia o auge de sua democracia, as guerras médicas haviam passado, as assembleias ferviam e as disputas judiciais decidiam o destino de cidadãos. O Cosmos estava longe demais; a pólis (a cidade) estava perto demais.
Ocorreu, então, a segunda grande antropofagia da filosofia: a virada antropológica. O foco do bisturi e do apetite filosófico deslocou-se do céu para a terra, do Cosmos para o homem. Mas os sofistas e Sócrates digeriram esse novo objeto de formas radicalmente diferentes.
I. Os Sofistas: A Devoração Pragmática e o Homem-Medida
Os sofistas foram os primeiros a perceber que a física pré-socrática havia chegado a um impasse hermético (as contradições entre o fluxo de Heráclito e a imobilidade de Parmênides). Diante da aparente impossibilidade de conhecer a verdade última do universo, os sofistas operaram uma digestão puramente pragmática.
O Conceito Devorado: A Phýsis (a lei natural objetiva).
O Processo Digestivo: Eles engoliram a noção de uma "lei universal" e a converteram em Nómos (a lei humana, o costume, a convenção social).
A Nova Carne: Protágoras de Abdera sintetiza esse banquete na máxima: "O homem é a medida de todas as coisas".
[Phýsis: Lei Cósmica Absoluta] │ ▼ (Digestão Sofista) [Nómos: Convenção Humana Relativa]
Ao devorar a verdade absoluta da natureza, os sofistas excretaram a metafísica e assimilaram a retórica e a linguagem. Para eles, se a verdade sobre o Cosmos é inacessível, o que importa é a utilidade do discurso na pólis. O filósofo-sofista torna-se um mestre da palavra, capaz de transformar o argumento mais fraco no mais forte. Eles digeriram a filosofia da natureza para alimentar a política, o direito e o sucesso prático dentro das muralhas da cidade.
II. Sócrates: A Anatomia da Alma (Psyché)
Sócrates olhava para a antropofagia dos sofistas com profunda desconfiança; para ele, o relativismo deles não era digestão, era veneno. No entanto, Sócrates compartilhava do mesmo diagnóstico: a física dos antigos não bastava.
O próprio Platão narra, no diálogo Fédon, que Sócrates em sua juventude fora fascinado pela ciência da natureza, mas percebeu que saber se a Terra é plana ou redonda não o tornava um homem melhor. Sócrates decide, então, fundar a anatomia da interioridade.
O Novo Corpo Hermético: A própria alma humana (Psyché), entendida não mais como um fantasma ou sombra (como em Homero), mas como a sede da consciência, da inteligência e da moralidade.
O Bisturi Socrático (A Ironia e a Maiêutica): Sócrates adota o método da dissecação dialética nas praças de Atenas. Ele aborda os cidadãos e, por meio de perguntas cortantes (ironia), remove as camadas superficiais de preconceito, opinião (dóxa) e falsa sabedoria.
Sócrates não oferece respostas prontas; ele faz o interlocutor parir (maiêutica) a própria verdade que estava latente, oculta sob os tecidos da ignorância disfarçada de conhecimento.
[Dissecação Socrática] Discurso Superficial (Opinião / Dóxa) │ (Bisturi da Ironia) ▼ Exposição das Contradições │ (Parto da Maiêutica) ▼ Conhecimento Autêntico (Essência do Bem/Justiça)
A Digestão Socrática do Sagrado
Sócrates também opera uma antropofagia em relação à tradição religiosa. Ele devora a inscrição do Templo de Delfos—"Conhece-te a ti mesmo"—que originalmente era um aviso de humildade para que o homem lembrasse que não é um deus. Sócrates digere esse imperativo e o transforma no fundamento de toda a ética Ocidental: conhecer a si mesmo é examinar a própria vida, pois "uma vida não examinada não vale a pena ser vivida".
O Contraste das Duas Digestões
Embora ambos tenham trazido a filosofia para o plano humano, a destinação dos nutrientes foi oposta:
Filosofia Objeto Devorado O que foi Assimilado O que foi Excretado Meta FinalSofistas A verdade cósmica da phýsis. A eficácia do discurso, o relativismo e o Nómos. A busca por uma verdade universal e estável. Vencer o debate na Pólis.
Sócrates A tradição moral e os conceitos da pólis. A virtude (Arete), a busca pela essência e o autoexame. A retórica vazia, a vaidade e as opiniões infundadas. Cuidar da saúde da Alma.
A virada antropológica, portanto, redefiniu o organismo da filosofia. O macrocosmos (o universo) foi digerido para que se pudesse inaugurar o estudo do microcosmos: o homem, sua linguagem, seus valores e suas leis. A partir desse banquete, a filosofia nunca mais pôde se afastar da responsabilidade de pensar a própria humanidade.
Se os sofistas fragmentaram o conhecimento no relativismo da pólis e Sócrates isolou a busca da verdade no território da alma, Platão operou a maior e mais voraz macro-antropofagia da Antiguidade.
Ele percebeu que um estudo da alma isolado do Cosmos seria cego, e um estudo do Cosmos isolado da alma seria vazio. Para curar a cisão do pensamento grego, Platão deitou na mesma mesa de dissecação a física imutável de Parmênides, o fluxo eterno de Heráclito, o rigor matemático de Pitágoras e a ética interior de Sócrates.
O resultado dessa gigantesca digestão foi o Dualismo Platônico (a separação entre o Mundo Sensível e o Mundo Inteligível), um sistema unificado onde a ordem do universo e a justiça da alma humana espelham-se perfeitamente.
I. A Dissecação e a Divisão da Carne: Os Dois Mundos
Para resolver o impasse entre Heráclito (tudo muda) e Parmênides (o Ser é imutável), Platão aplicou o bisturi dialético na própria realidade, dividindo-a em duas camadas metafísicas. Ele não descartou nenhum dos dois pensadores; ele os assimilou em compartimentos anatômicos diferentes:
O Mundo Sensível (A Carne de Heráclito): É o mundo físico, material, captado pelos sentidos. Este mundo está em constante mutação, viragem e corrupção. Nele, nada é, tudo apenas devém (torna-se). É o reino da opinião (dóxa).
O Mundo Inteligível ou das Ideias (A Carne de Parmênides): É o mundo das Formas puras, eternas, imutáveis e invisíveis. Nele residem as essências de tudo o que existe (A Justiça em si, o Belo em si, o Triângulo em si). Este mundo só é acessível pelos olhos da alma: a razão (lógos). Aqui reside a verdadeira ciência (epistéme).
O que une esses dois mundos? A Teoria da Participação (Méthexis). As coisas do mundo sensível são apenas cópias imperfeitas, sombras projetadas das Formas perfeitas do mundo inteligível.
II. Unindo o Cosmos e a Alma: A Homologia Estrutural
A grande engenharia platônica foi demonstrar que o Macrocosmos (o universo) e o Microcosmos (o homem e a cidade) possuem a mesmíssima anatomia. Ele operou uma homologia: a alma humana é um espelho do Cosmos, e a Cidade Ideal deve ser um espelho da alma ordenada.
Platão dissecou a alma humana em três partes (a Alma Tripartite), localizando-as no corpo e associando-as às virtudes e às classes da sua República ideal:
[MUNDO INTELIGÍVEL] ──► Bem / Formas Puras ──► O Sol Metafísico │ ▼ ┌───────────────────────────────────────────────────────────────┐ │ A HOMOLOGIA PLATÔNICA │ ├───────────────────┬──────────────────────┬────────────────────┤ │ PARTE DA ALMA │ ANATOMIA DO CORPO │ VIRTUDE DA SÍNTESE │ ├───────────────────┼──────────────────────┼────────────────────┤ │ Racional │ Cabeça │ Sabedoria (Sophía) │ │ Irascível/Colérica│ Peito (Coração) │ Coragem (Andréia) │ │ Concupiscível │ Baixo-ventre │ Temperança │ └───────────────────┴──────────────────────┴────────────────────┘ ▲ │ [MUNDO SENSÍVEL] ───► Reflexo / Matéria ───► Caos Ordenado
O Banquete da Justiça
A Justiça (Díke), para Platão, tanto na alma quanto na cidade, não é um acordo exterior (como queriam os sofistas), mas uma saúde de proporções. Uma alma é justa quando a parte racional governa a irascível e domestica a concupiscível.
E de onde a razão tira o critério para governar? Do Cosmos Inteligível. Ao contemplar a ordem eterna das Ideias, a alma traz essa harmonia cósmica para dentro de si e a projeta na política.
III. O Caso Máximo da Síntese: O Timeu e o Demiurgo
O ápice dessa antropofagia cosmo-antropológica está no diálogo Timeu. Nele, Platão devora a tradição mítica da criação do mundo e a reescreve sob o rigor da geometria pitagórica.
Platão introduz a figura do Demiurgo—um artesão divino. O Demiurgo não cria o mundo do nada (como o Deus judaico-cristão), mas olha para o Mundo das Ideias (o modelo perfeito) e tenta moldar a matéria caótica à imagem desse modelo.
A Alma do Mundo: O Demiurgo cria o universo como um organismo vivo dotado de corpo e de uma Alma do Mundo.
O Vínculo Definitivo: A alma humana é feita do mesmíssimo composto que a Alma do Mundo, apenas em uma gradação menos pura.
Isso significa que, quando o ser humano estuda astronomia, matemática e filosofia, ele não está olhando para algo "estranho" a si; ele está reconhecendo a mesma inteligibilidade e harmonia que habitam a sua própria interioridade. É o macrocosmos despertando o microcosmos.
A Digestão Final de Platão:
Platão pegou os fragmentos de um espelho quebrado pelos pré-socráticos e pelos sofistas e os fundiu novamente. Ele usou a ética de Sócrates para dar um propósito ao Cosmos, e usou a física dos pré-socráticos para dar uma fundação objetiva e eterna à moral de Sócrates. O homem platônico não está perdido na contingência da história; ele é um cidadão do universo, cuja alma tem a vocação de se sintonizar com a música eterna das esferas.
Como Aristóteles realizou sua própria digestão crítica do platonismo, rejeitando a separação dos dois mundos e fundando a teoria do hilemorfismo (forma e matéria unidas)?
Se Platão construiu seu sistema dividindo a realidade em dois mundos para salvar a metafísica, seu aluno mais brilhante, Aristóteles, sentou-se à mesa com um apetite diferente. Para Aristóteles, a macro-antropofagia de Platão havia gerado uma "indigestão cosmológica": ao tentar explicar este mundo através de um Mundo das Ideias separado (Chorismós), Platão havia apenas duplicado o número de coisas existentes, sem explicar como o movimento, a mudança e a vida de fato ocorrem aqui na Terra.
Aristóteles decide, então, realizar sua própria digestão crítica do platonismo. Em vez de manter as Formas puras flutuando em um céu inteligível, ele rasga o véu platônico, engole as Ideias e as faz descer de volta ao mundo sensível. O resultado dessa assimilação é o Hilemorfismo.
I. A Dissecação do "Abismo" Platônico
O bisturi de Aristóteles mirou no ponto mais frágil da teoria de seu mestre: a noção de "participação" (Méthexis). Aristóteles argumentava que dizer que as coisas sensíveis "participam" das Ideias eternas era usar apenas metáforas poéticas e palavras vazias.
Se uma estátua de bronze é bela, a "Beleza em si" não pode estar em outro mundo; ela tem que estar encarnada na própria estátua. Para curar essa separação, Aristóteles unificou os dois mundos platônicos em uma única substância (Ousía) através de dois conceitos gêmeos: Matéria (Hýle) e Forma (Morphé).
[DUALISMO PLATÔNICO] [HILEMORFISMO ARISTOTÉLICO] Mundo Inteligível (Formas) SUBSTÂNCIA UNIFICADA │ ┌───────────┐ (Abismo / Chorismós) │ FORMA │ │ │ (Essência)│ Mundo Sensível (Matéria) ├───────────┤ │ MATÉRIA │ │ (Potência)│ └───────────┘
II. O Banquete Hilemórfico: Forma e Matéria Unidas
A palavra Hilemorfismo vem da junção de Hýle (matéria) e Morphé (forma). Na digestão aristotélica, esses dois elementos são absolutamente indissociáveis na realidade física; eles são os dois lados da mesma moeda.
A Matéria (Hýle): É o princípio de indeterminação, o substrato de que as coisas são feitas (o bronze da estátua, a carne e os ossos do homem, a madeira da mesa). A matéria, por si só, é pura potência—ela tem a capacidade de se tornar algo, mas ainda não é.
A Forma (Morphé): É o princípio de determinação, a essência inteligível que faz com que uma coisa seja o que ela é (o desenho da estátua, a alma humana, a estrutura da mesa). A forma é o ato—aquilo que atualiza a matéria.
O toque antropofágico: Aristóteles não destruiu a "Ideia" platônica; ele a engoliu e a transformou em Forma Imanente. A essência do homem não está no céu das Ideias; está dentro de cada homem, organizando a sua matéria viva.
III. A Digestão do Movimento: Potência e Ato
Ao unir Forma e Matéria, Aristóteles resolveu o problema do movimento (o devir) que tanto atormentava os gregos e que Platão só conseguiu resolver criando dois mundos. O movimento nada mais é do que a passagem da potência ao ato.
Para estruturar essa digestão, Aristóteles dissecou a causalidade da realidade em Quatro Causas fundamentais. Imaginemos a criação de uma escultura:
Causa Material: Aquilo de que a coisa é feita (ex: o bloco de mármore).
Causa Formal: A forma, o design ou a essência que a coisa assume (ex: a figura de um herói).
Causa Eficiente (ou Motriz): O agente que impulsiona a mudança (ex: o escultor com o cinzel).
Causa Final: O propósito, a meta ou o fim para o qual a coisa existe (ex: adornar um templo, buscar a beleza).
IV. A Síntese da Alma e do Corpo
A aplicação mais visceral do hilemorfismo se dá na antropologia de Aristóteles. Enquanto Platão via a alma como uma prisioneira do corpo (uma entidade do Mundo inteligível presa no Mundo sensível), Aristóteles digere essa relação sob a ótica biológica:
A alma é a forma do corpo orgânico; o corpo é a matéria da alma.
Eles não são duas substâncias diferentes unidas por acidente; são uma unidade substancial indivisível. A alma é a função, a vida e o ato do corpo. Se o olho fosse um animal inteiro, a visão seria a sua alma. Quando o corpo morre, a matéria perde sua forma viva e entra em decomposição.
O Resultado da Digestão Aristotélica
Aristóteles realizou uma antropofagia que trouxe a filosofia dos céus de volta à terra, fundando as bases da ciência natural, da biologia e de um realismo metafísico. Ele demonstrou que o inteligível (a Forma) pode ser encontrado e dissecado no próprio sensível (na Matéria). O Cosmos não precisa ser abandonado para que possamos compreender a verdade; ele precisa apenas ser observado e categorizado em sua maravilhosa imanência.

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